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TERRA MOLHADA

PROMESSA DE FRUTOS MADUROS, DE ABUNDANTES COLHEITAS... BÊNÇÃO DAS PRIMEIRAS CHUVAS DE VERÃO... DOCE PERFUME DE TERRA MOLHADA...

TERRA MOLHADA

PROMESSA DE FRUTOS MADUROS, DE ABUNDANTES COLHEITAS... BÊNÇÃO DAS PRIMEIRAS CHUVAS DE VERÃO... DOCE PERFUME DE TERRA MOLHADA...

AMAR, HIPERVENTILAR

Hoje não consigo escrever sobre ti

Consigo apenas pensar em ti

Hoje não escuto o que dizes

Mas saboreio-te as palavras

Antes que as digas

Porque obturadas

Da forma habitual

Leio-as no teu coração

(Escritas ditas gravadas

Podem ser editadas)

Bebo-as pois na fonte

Borbulhantes espontâneas

Sem aditivos

Despidas de adjectivos

Não processadas

Mas hoje era sobre nós

Que queria falar

Com o coração

Por opção

E porque a dicção

Me titubeia e periclita

Hoje queria

(Hoje quero desejo anseio)

Respirar-te

Hiperventilar

E amar amar amar-te

INTROMISSÕES...

Gosto

Contragosto

Desgosto

Interposto

Exposto

Indisposto

Compreendo o teu gosto

E só a contragosto

E com manifesto desgosto

Aceito ficar interposto

Sinto-me exposto

Manifestamente indisposto

Indisposto porque exposto

Exposto porque interposto

Interposto com desgosto

Desgosto, contragosto

Gosto, não gosto

A trois nem a contragosto

Manifestamente e com desgosto

Não gosto do teu gosto!


Que fique claro: o fenómeno existe, ganha dimensão (“ménage à trois”, “swing” e todas a outras designações possíveis, para uma forma de partilha que não faz sentido) mas a descrição anterior nada mais é do que o resultado da pura imaginação criativa do autor. E assim sendo, fica inteiramente em aberto a hipótese de não ter razão - e de fazer algum sentido aquilo de que não gosta...)

RETIRO ESPIRITUAL...

Talvez faça sentido

E seja este o momento

De ser como o vento

Ou o leão enfurecido

De ser a tempestade

Porque a permanente bonança

Dificulta a mudança

De não ficar pela metade

De quebrar as amarras

De interromper o mito

Em que já não acredito

Já não sinto aquela chama

Quando me agarras

Talvez deva cortar amarras

Rumar à minha Taprobana

(E construir nela uma cabana

Com apenas um lugar)

E um dia pode acontecer

Quem o pode adivinhar

Que tenha de duplicar

O espaço de acolher


Uma coisa é aquele tipo de construção que por vezes fazemos no nosso imaginário para um percurso possível relativamente à nossa vida, outra bem diferente é a probabilidade ou a possibilidade mesmo remota de que o mesmo se possa vir a concretizar.

A imaginação é talvez uma segunda forma de viver e ao contrário dos vários tipos de vida em comum que nos podem ocorrer, esta é sempre muito pessoal. A regra, é quase sempre mantê-la no nosso baú das "coisas secretas" que apenas em momentos muito especiais nos atrevemos a visitar.

 

 

PORTAL DO TEMPO...

No portal do tempo

Paro por um momento

Nem fora nem dentro

Sei que posso voar

Se à tua eu juntar

A recusa de abdicar

Mas posso também

Optar pelo aquém

Terra de ninguém

É breve a hesitação

No fundo simples opção

Entre cérebro e coração

Decido e entro

No portal do tempo

E em passo lento

Caminho

Tu és o caminho

Cheiras a pinho

Acabado de serrar

És  o meu altar

Onde me apetece rezar

És a minha fonte

A minha ponte

Até ao horizonte

Porém algo acontece

O dia amanhece

E o sonho fenece

Não há portal do tempo

Nem o teu altar

É de madeira de pinho

Acabada de serrar

Nem és o meu caminho

Nem me apetece rezar

Nem eu caminho

Porque acabo de acordar

UMA GALÁXIA MUITO PRÓXIMA...

Mexes comigo

Contigo 

Eu vibro

Eu acelero

E partindo do zero

Já te espero

Quando chegas aos cem

Contigo sinto-me bem

E vou sempre mais além

Na noite cálida contamos estrelas

Mãos sob a nuca tu ficas a vê-las

Porém a teu lado eu escolho aquelas

Que nos teus olhos contemplo

E por um momento

Eu apago as do firmamento

Interpondo-me entre elas

E o brilho daquelas

Que considero as mais belas


Há noites assim, em que as estrelas nos desassossegam. As que vemos sem poder tocar e aquelas em que tocamos e onde por vezes mergulhamos - que há estrelas assim, com mar, onde podemos ir e voltar, mergulhar, viver e morrer sem deixar de respirar. Estrelas que nunca deixaremos de amar...

MAPA DE TI...

 

Mapa de uma estrada

Mil vezes percorrida

Noite mal dormida

Melodia inacabada

Ponto de partida

Aurora boreal

Apelo matinal

De libido renascida

Dedilho teus cabelos

Dó-ré-mi solfejo

Fá-sol e só desejo

Que escutes meus apelos

Lá-si e recomeço

O solfejo é mesmo assim

Si de ti mi de mim

Na meia encosta de ti

Respiração inconstante

Paro por um instante

Vivo ainda ou morri

Mas não faz sentido

A dúvida que me assalta

Se eu sinto a tua falta

Como posso ter morrido

Volto ao mapa da estrada

Ao teu corpo fremente

E fica de novo urgente

Reiniciar a escalada

Desde o ponto de partida

Porque a aurora boreal

Ou este vigor matinal

Não vão durar toda a vida

 

DEVAGAR, COMO QUEM CORRE...


Enlaças-me apertas-me

Como trepadeira ao seu tutor

E gemes imploras ou ordenas

Que venha depressa que voe

Mas eu não vou nem voo

Nem podia fazê-lo

Porque já estou

Precoce cheguei

Mesmo sem me apressar

Dez vezes dez contei

Devagar como quem corre

Sobre a corda bamba

Qual funâmbulo sem o ser

Correndo o risco de cair

Cavalguei o nada

Que antes de ti

Era apenas o verbo

E chegado ao fim da linha

À última estação

Sem te ver a meu lado

Entre o desistir

E viajar noutro dia

Decidi esperar por ti

Até que chegaste

Me enlaçaste me apertaste

Ascendeste sobre o meu cansaço

Ordenaste que fosse e eu fui

Como se fosse a vez primeira

Dez vezes dez contei

Como da primeira vez

E voei como ave marinha

Voo mergulho voo mergulho

Dez vezes dez contei

E retemperados (ou cansados) chegamos!

 

FIM DE ESTAÇÃO...

Ainda consigo lembrar
Na ténue rebentação
Das ondas do teu mar
Quando ouso mergulhar
Cada vez mais fugaz
O meu olhar
Bem no fundo de ti
Aquela outra maré
Em que perdi o pé
E a razão
Mas os bramidos
Da tua preia-mar
Ou os gemidos
Do teu amainar
Que faziam a rotina
De todos os dias
Já não fazem soar
Trombetas celestiais
E  até no céu
Do teu olhar
E também do meu
Aos alvores matinais
Tolda-os agora um véu
De névoa fria
O cheiro a maresia
Começa a dar lugar
Ao odor mais denso
E menos apelativo
Da terra molhada
O sol que nasce em ti
Brilha menos intenso
E copia do  Astro Rei
O gesto furtivo
Da carícia roubada
Ou não consumada
É a mudança de Estação
Porque também o amor
Tal como o Verão
Perde o fulgor
De forma natural
Só que mais radical
Definitivo e fatal
Porque neste caso o processo
Não tem forma de regresso

(Inspirado em partes iguais, no relembrar de vidas passadas e na observação atenta da imensidão deste mar de Vila Praia de Âncora em finais de Agosto deste ano de 2009)

QUASE NADA...

Mil vezes tentei
E outras tantas desisti
Quase fiquei
Quase parti
Mas só quando quebrei
A dependência de ti
E me libertei
Percebi
Que quase nada
Mantinha a chama
E esta apagada
Resta a quem ama
Pouco mais que nada
Acabamos pois com tudo
(Afinal quase nada)
Parti mudo
E tu calada
Afinal para termos tudo
Faltou só um quase nada
De tudo...

DÚVIDAS...

Hesito...
Entre o dinâmico vai - vem
Ou a estática que me retém
E fico
Porém
Tal como a água da levada
Não move moinhos parada
Também
Parado
À espera que aconteça
Ou que o forno aqueça
Apagado
Equivale
Ainda que mal comparado
A querer ter-te a meu lado
Divinal
Palpitante
Sem te ter cortejado
Sem me fazer amado
E neste instante
Já não hesito!