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TERRA MOLHADA

PROMESSA DE FRUTOS MADUROS, DE ABUNDANTES COLHEITAS... BÊNÇÃO DAS PRIMEIRAS CHUVAS DE VERÃO... DOCE PERFUME DE TERRA MOLHADA...

TERRA MOLHADA

PROMESSA DE FRUTOS MADUROS, DE ABUNDANTES COLHEITAS... BÊNÇÃO DAS PRIMEIRAS CHUVAS DE VERÃO... DOCE PERFUME DE TERRA MOLHADA...

PERCURSOS DE PRAZER - III

Eu iniciava o meu primeiro “voo sem rede”, para ti era apenas um entre os muitos em que a “rede” tinha deixado de ser necessária…

Encontramo-nos por acaso (ou talvez não, que nestas coisas do amor, o acaso é muitas vezes subtilmente manipulado…) Estavas triste nesse fim de tarde, porque a magia tinha deixado de existir nos teus percursos habituais, eu igualmente triste, porque os meus habituais percursos não tinham qualquer espécie de magia…

Acabava de arrumar na prateleira os livros da escola, para iniciar longe do meu habitat, os primeiros passos no mundo do trabalho. Estava vulnerável, meio perdido no meio de um deserto com muitas casas e ruas a abarrotar de pessoas que não conhecia, faltavam-me quase todas as referências do meu quotidiano – o mesmo que eu até há pouco considerava desinteressante: As copas dos pinheiros quase ao cimo da minha casa, os cumes das serras no horizonte mais distante, os silêncios pontuados pelo canto do cuco da cotovia e de outros pássaros, pelo grito ocasional da águia ou grasnar frequente dos corvos, pelo sopro do vento nas copas altas das árvores da Quinta da Portela no espaço visível ao fundo da minha casa…

Estava ainda numa fase de adaptação ao novo habitat: O bramido das ondas ao fundo da rua em dias de invernia, o roncar do Farol de Leça nas noites de nevoeiro ou o toque estridente e atroador das sirenes dos barcos na entrada ou saída do porto de Leixões eram agora as sonoridades predominantes nos intervalos dos meus silêncios e o meu horizonte sendo menos limitado – o meu olhar podia estender-se por milhas e milhas de mar azul até ao “exacto” ponto em que o céu “começa” – nem por isso deixava de me provocar, apesar da imensidão de espaço aberto à frente dos meus olhos, uma estranha e claustrofóbica sensação clausura…

Com todas estas condicionantes a interagirem com o meu estado de espírito, não sei ainda hoje se foste tu a iniciar-me na arte de caminhar sobre as nuvens ou se fui eu que com a fogosidade que só a inexperiência pode dar, te arrastei para os voos temerários que se seguiram: Esqueceste itinerários enfadonhos do teu passado recente para me iniciares, a mim que apenas dava os primeiros passos como caminheiro (e te iniciares também tu…) nos novos percursos – veredas de prazer – que juntos calcorreamos vezes sem conta durante o tempo de pudemos dispor...


(...até que tive de partir, porque para além “daquela linha do horizonte” onde era suposto acabar o mar e começar o céu, afinal havia mais mundos, outros Continentes e uma guerra que alguém - que por acaso terminou os seus dias naquele final de Julho de 1970 quando decorria a minha viagem para Moçambique a bordo do velhinho Paquete Niassa - em nome de um falso patriotismo mantinha em fogo lento e onde querendo eu ou não, concordasse ou discordasse dos fundamentos da mesma, teria que participar…

 No regresso em finais de 1972, o fogo tinha-se inevitavelmente extinguido : quebrara-se a magia!)

 

(14-12-2008)

 

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